Era um domingo ensolarado e eu fui aproveitar o sol que batia no parque da Aclimação. Por falta do espírito atleta, em vez de tênis e legging fui dar uma volta munida de havaianas e um livro. Sentei na sombra e fui abduzida pela leitura, ria sozinha e quando percebia me controlava, mas em um certo momento me esqueci que estava em público e ri, uma senhora, bem senhorinha mesmo, se sentou do meu lado.
Ficou olhando fixo, quase sem piscar. Sem graça, cumprimentei a velhinha, ela, absorta, levou um susto e pediu desculpas. Elogiou meu sorriso e perguntou quem eu era, o que fazia, de onde vinha. Contei e ela me perguntou mais. E mais. A cada “causo” que eu contava a velhinha ria, gargalhava. Me empolguei e fui contando mais, caprichando e aumentando lá e cá para a narrativa ficar mais interessante. Depois de uma história, o silêncio. Uns três minutos. Ela me olhou e com os olhos molhados me disse o que tento colocar aqui como me lembro das suas palavras:
“É lindo uma moça assim, cheia de vida, com planos, histórias e paixões. É lindo uma moça tão viva, tão independente. Queria voltar no tempo, amadurecer com a idade, aos poucos e não me casar tão cedo. Era muito ingênua, me deixei levar, vivi uma vida que queriam que fosse minha. Fui de um jeito que me criaram para ser, até hoje não sei quem de fato sou. Fazia várias coisas que não queria, não sentia, só por ser a boa moça, a correta, mãe de família. Acredita que eu nunca vi meu marido pelado? Só de relance, juro. Vivi 53 anos da minha vida com o homem que amei e nunca o vi sem roupa. Não sei como é o umbigo do pai dos meus três filhos, não sei se tem marca de sol, nascença, não sei.”
Ficamos mudas, por um bom tempo. Eu não sabia o que falar, tentava quebrar o silêncio, mas nada vinha na minha cabeça, só olhava para ela e sorria. Ela fez um carinho no meu rosto, apertou minhas bochechas, murmurou um “linda”, beijou minha testa e se levantou. Perguntei o nome dela. Lídia. Dona Lídia. Me agradeceu pela conversa e disse que há tempos não conversava de verdade com alguém, apenas “frivolidades de tempo e novela”. Disse que minha avó tinha sorte e que seria feliz de me ter como neta.
Agradeci, cheia de vergonha, e perguntei se ela morava pela região. Disse que não, que era de fora, do interior, quase 600 km longe dali, disse que voltava para a cidade, cujo nome eu esqueci, dentro de dois, três dias, mas que se voltasse para São Paulo daria de novo uma volta pelo parque e procuraria uma menina de óculos e rabo de cavalo rindo para um livro. E foi embora.
- Muito prazer Dona Lídia, muito obrigada por me permitir te conhecer.
Foram as palavras que não disse para a senhora que, sem me conhecer, se sentou ao meu lado, ouviu minhas histórias e me disse as palavras, da mesma espécie dessas que eu não falei, mais lindas que eu já ouvi.

